
Esse foi um assunto que discuti com um amigo a respeito do conceito de Verdade Absoluta, deixo aqui nossas elaborações, espero que ajude você a também refletir sobre o tema:
Olá Marcos!!
Tudo bom? Espero que sim!
Sabe, eu ando, quero dizer, eu to sempre me pegando pensando em questões filosóficas.
Essa questão da “Verdade” tem me perturbado bastante.
E muitas vezes me sinto impotente sem saber a onde ir, e a quem recorrer!!
Eu lembrei de você porque eu tenho visto que você é uma pessoa de mente aberta o bastante para me compreender.
Veja bem, eu não falo de inteligência, mas sim de compreensão.
Sabe, uma noite dessas me peguei pensando algo que soaria absurdo para qualquer pessoa.
Eu fico até com um certo receio de expor, por saber que é um tanto chocante entende?
Mas antes de dizer, queria saber de você algo importante!
Você acredita que todo o caminho, ou forma de buscar encontrar a “Verdade” é válida?
Deixe eu reformular a pergunta pra ver se fica mais compreensível o ponto em que desejo chegar….
Você acredita que para conhecer o Bem, é importante conhecer o Mal?
Se sim, você saberia me dizer até que ponto ( e se há algum ponto em que ) se deve estar disposto conhecer o Mal, para conhecer o Bem em sua plenitude?
Ou será que se pode conhecer plenamente o Bem supremo, rejeitando totalmente o Mal?
Além disso, o que você acha que melhor se adapta a “Verdade”?
Conhecer apenas o bem, sendo em digamos, termos experimentais mesmo, completamente ignorantes acerca do Mal?
À mim pelo menos parece que a “Verdade” não pode ser ignorância de espécie alguma. Mas deve ser justamente o oposto da ignorância.
É necessário conhecer o Mal tão profundamente quanto o próprio Bem!
Ou não?
Desculpe, estou enviando essa mensagem pela segunda vez pois tive duvida se você recebeu da primeira vez…é que eu recebi no e-mail uma notificação de falha..
Obrigado pela atenção
e um forte abraço!
Albeni
…
Resposta:
E ae rapaz, beleza? Vi sua mensagem recentemente e quero lhe dar os parabéns por se dedicar a esse tipo de pensamento, a meu ver isso denota um espírito de honestidade, coisa essa que a grande massa principalmente no Brasil realmente não possui. As pessoas aprendem honestidade no seio familiar porém ser honesto, intelectualmente falando, é muitíssimo difícil, até para os mais dedicados.
Hoje estava voltando do trampo e me tomei de assalto com uma pergunta similar a sua:
“As pessoas realmente querem a verdade?”
“Será que eu a quero, ou posso de fato suportá-la?”
Cheguei a conclusão mais óbvia… Todos são alienados, porque para nossa condição natural é impossível reconhecer toda a Verdade.
Eu posso sim buscar uma verdade e tudo acerca de mim. Mas será que posso conhecer a verdade de uma criança sujeita a progéria? Ou de uma mulher pobre que pesa 200 quilos? Ou de um paraplégico que insiste em viver somente movendo o pescoço? Poderia eu conceber a verdade da viúva e do órfão? Do assassino ou do milionário?
Simplesmente não poderia! Isso é uma total impossibilidade para minha natureza.
Que conhecimento se aprende nos livros? Mas os próprios livros não sabem de todas as minhas contingências, assim como eu não sei da contingência de todas as pessoas.
Desse modo chego a conclusão mais simples. A empatia é um dos elementos mais importantes para pelo menos tentarmos discernir a realidade no que concerne ao arcabouço social.
O problema é que ser empático é estranho em nossa sociedade, é como o príncipe do livro – O Idiota – de Dostoiévski, um rapaz puro com apenas 27 anos que é epilético e possui as facetas de Dom Quixote, no que se refere as fantasias e as de Cristo no que se refere a dignidade intuitiva, visto pela sociedade como uma personalidade débil e fraca, porém carregando dentro de si uma inspiração profética semelhante a Davi, Isaías, Daniel ou Jeremias, como uma águia escondida num galinheiro e malquista pelas galinhas.
Enfim, teria muito a dizer sobre nossa incapacidade de descortinar o real que ao mesmo tempo nos atrai a honestidade ao ponto de alcançarmos o status do varão perfeito de Paulo ou mesmo o Spoudaios de Aristóteles, mas visando uma simplificação do conteúdo e uma melhor dissecação do tema proponho a vc que assista uma aula do Filosofo brasileiro Carvalho sobre esse aspecto da natureza da verdade, jogue no Youtube - {A Filosofia e seu Inverso}, se já tiver visto e se possível, fale-me das suas impressões…
Grande abraço

…
Resposta
Desculpe a demora, mas enfim…
As pessoas de fato sabem o que são e o que desejam, ou se enganam a si mesmas na fútil tentativa de justificar suas ações contrárias a sua própria natureza..
Vi o vídeo do Olavo de Carvalho, e concordo com ele.
As pessoas escondem-se atrás das racionalizações. Sei que ele falava primariamente dos pretensos filósofos!! Mas em meu entendimento acredito que ele considerava qualquer pessoa com essa aspiração em comum
O motivo disso me parece bastante simples. É mais cômodo, mais fácil, menos doloroso esconder-se de si mesmo atrás das racionalizações..
Suponho que isso seja assim, porque a própria sociedade com suas regras, nos faz acreditar que tudo o que seja diferente, que corra por fora de suas normas, de suas leis, de seus preceitos morais, seja Mau.
Mesmo aquilo que faça parte da natureza humana. Nesse aspecto, é como que dizer que a natureza do homem é abominável.
Enquanto o Olavo falava das racionalizações, me lembrei imediatamente dos Sofistas do tempo de Sócrates. Eles nunca deixaram de existir!!
Veja que sei que o Olavo não condenou a racionalização em si. Pelo contrário!! Ele condenou a atitude dos pretensos filósofos, que fazem da racionalização um instrumento de sua insanidade.
De fato, como você mesmo disse, é difícil encontrar alguém disposto a aceitar a verdade, a verdade de si mesmo. Tornar-se o Spoudaios. Mas não impossível!!
E mesmo que a aceite, ou seja, compreenda o seu próprio ser, como você mesmo disse, é muito difícil descobrir a verdade do outro.
A empatia que você citou, me soa como o Amor do Cristo. Porque de fato, é a mesma coisa.
O amor do Cristo, ou empatia, não deve ser entendido como o falso amor pregado, ou sentido pelos ditos cristão de hoje. Porque é isso que eu pelo menos tenho observado mais!! Talvez eu esteja enganado, não sei!!?
Acredito fortemente que nesse amor, ou empatia, deve residir um caráter de absoluta tolerância. E é justamente por observar a carência de tolerância no dito cristianismo de hoje, que eu não o considero mais como único caminho de salvação…
Observo essa característica muito mais desenvolvida no budismo por exemplo. Então logo me identifico, me interesso por isso. Não quero dizer que rejeito Jesus, em prol de Buda, mas busco entre eles uma unidade no pensamento..
Procuro analisar os filósofos, e pensadores das religiões da mesma maneira. Não quer dizer que eu encontrei a verdade do mundo.
Mas pelo menos, que busco a minha própria verdade.
Mas eu ainda estou muito longe de ser o Spoudaios entende?
Mas,.. voltando ao Olavo!
Ele traz uma preocupação que eu também compartilho. A de que a filosofia deve tornar a ser um instrumento de formação do ser humano. Não permanecer mais, sendo um mero instrumento na mão de intelectuais.
Entendo que a formação do ser humano integral é o profundo e mais autentico objetivo da filosofia. E concordo que esse objetivo foi a muito esquecido.
É por isso que por exemplo, considero mais a Sócrates do que a seus sucessores.
Eu me atreveria a afirmar que esse objetivo da filosofia, por sua própria natureza se emparelha com os objetivos da religião.. E o maior erro dos filósofos foi segregar uma coisa da outra..
A filosofia se tornou vazia, sem um sentido de ser
E se ainda me disser, que o objetivo da filosofia é formar o Spoudaios, replico: Para que um Spoudaios?
Tornar-se um Spoudaios é um objetivo final?
E a Religião cada vez mais carente de fiéis esclarecidos, e repleta de fiéis acéfalos, por assim dizer. O ápice da religião a meu ver então ficou no passado. Talvez quem sabe na escolástica.
Mas enfim,..ai já estou teorizando e é melhor parar por aqui não é!!? kkkk
bom, muito obrigado pela atenção
e me desculpe a extensão do texto
Albeni
…
Resposta
Muito bom Albeni, vc realmente sabe o que fala, eu acredito que falta muito para que eu também alcance o Spoudaios de Aristóteles ou o Varão perfeito de Paulo ou a iluminação de Buda, a bem da verdade as relativizações humanas são de cunho paradoxal.
Como Paulo dizia: “O bem que compreendo fazer na mente não o faço na prática”.
Mas o mal que repudio acabo por consumar mesmo diante de um espírito pronto.
Sou um hipócrita? Seria se ocultasse ou ignorasse o mal que jaz em mim.
Essa contradição humana obviamente não é desculpa para justificação do nosso fracasso, mas pelo contrário, ela existe justamente para não nos justificar.
Nada me justifica perante o Eterno que é Perfeito e sendo Ele Altíssimo, como poderia alcançar a perfeição do Pai apregoada por Yeshua?
Ora não é o ideal de Yeshua segundo a verdade do Eterno?
No entanto ele como o Ungido, sabe que nós somos pó. E o paradoxo do Messias é justamente lidar com o ideal de Deus e o fracasso humano. Que bom que ele vive banhado com o óleo da alegria, posto que seu entusiasmo por nós não tem fim.
Sidarta viu o fracasso humano quando saindo de seu mundo ostensivo, enxergou o mundo real da dor e do sofrimento.
Iniciou-se então no caminho da teodicéia dentro do prisma Hindu, questionando a divindade suprema pelas mazelas humanas.
No entanto talvez não tenha se apercebido que não podendo conhecer a verdade do seu próximo em todos os aspectos, também jamais poderia conhecer a verdade do Eterno, impedindo-lhe portanto de imputar o mal à Divindade tentou negá-la. Buscou a iluminação descontente com seus contemporâneos e assim como nós iniciou-se na busca do saber embora aprisionado aos parâmetros de sua época. Deveras, na tentativa de transcende-los encontrou o caminho do meio.
Pra mim esse nirvana de Sidarta não é meramente algo místico antes de ser existencial e se é existencial faz parte da teodicéia porque o mundo de Sidarta era o mesmo mundo de Isaías, Moisés e Maomé.
A verdade não é o homem a não ser que o homem se esmiúce pela verdade.
Mas afinal o que é a verdade?
Quando Yeshua foi questionado a esse respeito ja estava prestes a ser crucificado, Ele não respondeu a pergunta emitida por Pilatos, somente o olhou, imagino eu, com profunda compaixão, posto que a Verdade Absoluta é inefável, tão inefável ao ponto de os tolos reprimirem seu intento em via do relativismo e niilismo. Mas o amor é forte como a morte e isso é existência, tanto o amor como a morte, assim questões relativas a existência não são tratadas no viés da moral, mas sim da imputação do Eterno, posto que somente Ele vê a si mesmo e nós o vemos no servo que escolheu.
Penso que o mundo não pode ser compreendido mediante o mérito, porque a mesma existência testemunha de maneira diferente, mas fato é que também tem o seu lugar aos olhos daquele que tudo vê, desde que nasça do âmago do espírito. Certamente Ele honraria aquilo que viesse de si mesmo. Tendo fé em esperança as vezes contra a esperança porque a única justificação para o homem diante do testemunho da história é de que sendo maus ainda sabemos dar coisas boas aos nossos filhos.
Assim tenho que concordar com Sócrates, porque só sabemos quando nada sabemos e encarando assim nossa miserabilidade estaremos mais perto de Deus.
Quem se ufana não pode conhecer a verdade o que torna mais estranho ainda a pergunta de Pilatos a Yeshua, uma vez que Roma era a glória do mundo. Ora, se sabemos quem somos sabemos que nada somos e quando nada somos nos tornamos tudo para Ele, do contrário não teria morrido por nós. Essa é a verdade que aprendi no livro que testemunha a vida de Jesus.
Caro amigo gostaria de, se possível, incluir seus comentários numa postagem em meu blog, caso possibilite isso me dê sua permissão, grande abraço.
…
Resposta:
Marcos, Deus não pode nem poderia esperar, exigir perfeição dos seres humanos, porque de fato isso seria incoerente com nossa imperfeição, a qual ele mesmo sancionou.
Mas como você bem disse, isso também não é justificativa para nossa apatia espiritual. O que é bem comum!!
É evidente que Paulo, mesmo tendo sido esclarecido da verdade de Deus, não se tornou perfeito. Prova são as afirmações dele próprio como a que citas-te.
Eu particularmente tomo o cuidado de não tomar nenhum homem, seja Paulo, seja Sidarta, seja Osho, ou mesmo o Apostolo Valdemiro Santiago, como santo, como um ser perfeito. Só considero como perfeitos o Pai, e o Filho.
A nossa perfeição, na concepção cristã, ou de qualquer religião, porquanto ainda mortais como somos, não pode ser algo estático, pronto e acabado. Mas a entendo como uma busca incessante, um cultivar ao longo de toda a vida, uma construção que não acaba enquanto não morrermos.
Acho interessante como essa concepção se harmoniza com as filosofias desde pensadores gregos como Sócrates até pensadores orientais como Lao-tsé, e certamente perpassam por muitos outros pensadores de todos os tempos chegando mesmo a tempos bem mais recentes com o místico Osho, e o atual Dalai Lama.
Nossa perfeição torna-se então, uma coisa relativa.
Poderia assim teorizar que o Spoudaios de Aristóteles poderia ser dividido em dois.
O Spoudaios aristotélico nascido do mundo das idéias, e o Spoudaios digamos, realista. Que se distinguiria pela busca e trabalho incessante de buscar, viver e morrer por uma verdade. Nesse caso a verdade adquiriria um caráter mais ideológico do que propriamente teológico, não é mesmo? Mas acredito que uma coisa não exclui a outra. Não necessariamente!
Assim, teorizaria que o Spoudaios mortal, apenas se tornaria o Spoudaios ideal, depois de morrer.
Mesmo um Buda, nesse contexto se ainda permanecesse nesse mundo, não poderia ser completo. Seria apenas o Spoudaios realista. O ultimo nível (por assim dizer) possível de ser alcançado nesse mundo.
Alcançar esse Spoudaios como bem disseste requer um esvaziamento interior. Um reconhecer a própria pequenez frente às coisas incompreendidas, desconhecidas. O que é impossível a quem se coloca acima de qualquer coisa. É isso que querias dizer, no exemplo dos romanos e Pilatos??
Isso me faz lembrar uma frase muito sábia que eu ouvi em um filme..por mais estranho que pareça!! No filme “Avatar”
Acredito que você já deve ter visto.
Quem disse foi a matriarca/mística do povo avatar:
- é difícil encher um copo que já está cheio.
Ou seja, no caso dos romanos, como eles poderiam se sujeitar aprender uma nova verdade, sabendo que ela poderia representar o fim de tudo o que eles acreditavam, e de tudo o que eles conquistaram.
Poderia aplicar aqui também a cena magnífica do filme “2012″, quando o Mestre Budista enche a xícara de chá até transbordar, para fazer o seu discípulo entender o quanto estava cego por suas tantas opiniões, que lhes impediam de enxergar a verdade.
No próprio filme da “Paixão de Cristo” a esposa de Pilatos faz uma sábia consideração sobre a verdade…
Valeu, obrigado pela atenção
e até
abraço
…
Talvez a verdade se resuma nas palavras de C S Lewis, quando ele diz que nossa existência é Agridoce…